Pertencendo a Si Mesma

Eu sempre busquei o sentimento de pertencer a algum lugar, provavelmente porque eu não o sentia nos espaços mais básicos: meu país, minha cultura. Sempre me senti como uma estranha no ninho e eu compensava tentando me encaixar. Sim, pertencer e se encaixar são coisas bem diferentes, mas geralmente confundidas como uma só. Brené Brown nos explica a distinção entre as duas:

“Se encaixar é sobre analisar uma situação e se tornar quem você precisa ser para ser aceita. Pertencer, por outro lado, não requer que mudemos quem somos; requer que sejamos quem somos.”

Me tornei mestre em me tornar quem eu precisava ser pra ser aceita. Mas se encaixar é exaustivo! Lá na minha adolescência até os meus 20 e tantos anos era mais fácil pois essa é a melhor época pra experimentar, tentar coisas diferentes até encontrarmos pertencimento. Então eu experimentei diferentes grupos, empregos, estilos, mas após um tempo eu sempre retornava à mesma sensação: a de que algo estava faltando e eu não estava sendo eu mesma.

Ao chegar nos 30 comecei um movimento de volta para mim mesma. Decidi parar de esconder quem eu realmente sou, parar de tentar agradar aos outros e começar a ser eu mesma. Acontece que isso não é tão simples após 3 décadas sendo mentalmente condicionada a me encaixar em algum lugar. Venho de um contexto onde o pertencimento não é tão importante assim, onde opções de carreira são limitadas a algumas profissões que garantam dinheiro, mas não necessariamente felicidade; onde relacionamentos são inevitavelmente falhos; onde o lugar em que se nasce determina onde você passará o resto da vida. Nesses cenários, se encaixar é o máximo que eu poderia conseguir.

Anos atrás eu decidi que isso não era suficiente para mim e parti em uma busca por propósito e pertencimento. Me mudei para um país onde me sinto em casa. Construí um relacionamento enraizado na ideia de parceria. Contra todas as expectativas comecei um negócio focado em ajudar mulheres a descobrirem seu poder interior, onde estou colocando minha alma, minha criatividade e todo o meu amor.

Mas mesmo depois disso tudo ainda me encontrei, inconscientemente, tentando me encaixar em espaços muito pequenos e apertados. Isso me deixou curiosa e, eventualmente, cheguei a 3 conclusões:

1) Quanto mais forçamos uma situação, menos lhe pertencemos

Às vezes encontramos o que parece ser um ótimo (insira: emprego, grupo, parceirx, crença, etc) e desesperadamente tentamos pertencer a isso. Mas logo percebemos que algo não está muito certo, temos esse sentimento, essa intuição, mas decidimos ignorá-los, afinal este parece tão atraente. Certamente existe algo de errado conosco, e se apenas tentarmos mais um pouco…. Já passei por isso muitas vezes e sempre acabei me culpando por não conseguir pertencer. Foi aí que percebi que:

2) Tudo bem não se encaixar

Não há nada de errado com você.

No livro Quiet, Susan Can escreve sobre se sentir uma estranha quando nossa personalidade é diferente do esperado – no exemplo do livro, como é ser introvertida em um mundo que não para de falar. Ela também fala do poder dos introvertidos (me incluo nesse grupo) e sobre como trazemos muitas qualidades para qualquer papel que desempenhamos, até mesmo papéis de liderança que são, em sua maioria, dominados pelos extrovertidos. Nesse caso, não tentar se encaixar seria não mudar sua forma de ser pra atender as expectativas do que significa ser uma líder. A mesma lógica possa ser usada em outros cenários: ao não fingir ser quem você não é você está respeitando a si mesma e provando que não existe apenas uma forma de desempenhar uma função. A recusa em se encaixar é uma forma de quebrar padrões pré-estabelecidos.

3) Ás vezes não encontrar o pertencimento é um sinal de que você deve criar um espaço em que você pertença

Quando você simplesmente não consegue se encaixar em nenhum lugar ou grupo pré-determinado você tem a oportunidade de criar pertencimento, para si mesma e para os outros. Esse foi o meu caso. Comecei achando que o não pertencimento era uma fraqueza, quando na verdade ele é meu super-poder. Ele significa que eu posso criar, moldar o que pertencimento significa para mim, e inspirar outras mulheres a fazerem o mesmo.

Aos poucos estou conseguindo deixar de lado a necessidade de me encaixar. Quando me aceito e amo quem eu sou realmente, consigo encontrar pertencimento em um lugar inesperado: dentro de mim mesma.

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