Cartas ao Medo

Eu e o medo temos um relacionamento muito próximo. Sinto que eu poderia escrever um livro inteiro sobre isso. O medo é uma emoção humana básica que garante nossa sobrevivência como espécie. Sem ele seriamos presa fácil. Ele é um mecanismo evolucionário que nos protege de situações de risco. Mas às vezes o medo toma tamanha proporção que acaba nos impedindo de fazer coisas perfeitamente seguras que nos trariam felicidade.

Há 5 anos atrás eu tive meu primeiro ataque de pânico. Eu não estava esperando, apenas aconteceu. Se você nunca teve um ataque de pânico (sorte a sua) eis uma breve descrição: você pensa que está morrendo. Eu estava no ônibus e de repente meu coração acelerou, comecei a suar, tive uma sensação horrível – eu tinha absoluta certeza que eu estava tendo um ataque cardíaco. Eu queria pedir ajuda mas não consegui. Queria descer do ônibus, mas não conseguia me mover. Depois de um tempo eu consegui mandar uma mensagem para o meu marido pedindo pra ele me esperar no ponto do ônibus pra me levar pro hospital. Por sorte meu ponto era bem em frente a uma farmácia. Entrei, medi minha pressão (estava alta, mas não a ponto de precisar chamar uma ambulância), tomei água, sentei e comecei a me sentir melhor. Foi quando me avisaram que eu tinha tido um ataque de pânico.
Com o tempo eu aprendi a reconhecer a diferença entre pânico e estar morrendo realmente. Saber a diferença não me ajudou. Ao contrário, eu comecei a ter medo de ter ataques de pânico.
Esse período da minha vida foi bem assustador, eu tinha medo de praticamente tudo. E foi bem inconveniente porque eu tinha acabado de me mudar para o Canada, tinha começado meu Mestrado e havia tantas coisas novas me esperando – eu queria aproveitar e não me sentir paralisada. Infelizmente não existe uma época conveniente para transtornos psicológicos se manifestarem. Não podemos escolher não ter ansiedade, depressão, TDAH, etc, etc.

Então eu fiz uma outra escolha, algo que estava no meu controle: escolhi procurar ajuda. Resumo da história: fui ao médico, tomei remédios, fiz terapia. Tudo isso me ajudou bastante e então pude tomar outras decisões: comecei a fazer meditação e a me exercitar regularmente, mudei minha dieta, comecei um diário.
Aos poucos deixei de precisar dos remédios. Aos poucos aprendi que eu nunca me livraria do medo, mas que eu poderia sim viver minha vida apesar disso. Aos poucos eu comecei a mudar meu pensamento e meu relacionamento com o medo – ele está presente, mas não está mais no controle. Dei ênfase ao “aos poucos” porque eu não quero dar a impressão de que essa mudança aconteceu da noite para o dia. Aprender a conviver com o medo tem sido um processo. Alguns dias são muito mais fáceis que outros, mas não deixa-lo interferir nas minhas atividades é uma decisão que eu tomo todos os dias. Hoje em dia eu lido com o medo através de mindfulness, meditação, coaching (sim, eu também tenho uma coach!) e do meu diário. Está funcionando, mas sei que existem outras formas de buscar ajuda caso meus métodos deixem de ser efetivos.

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Não sou a única!

Algo que me ajudou a ficar mais confortável na presença do medo é saber que eu não sou a única. É obvio, eu sei, afinal o medo é uma emoção humana. Mas uma coisa é entender racionalmente que ele é uma condição humana, outra é ver como outras pessoas lidam com o medo.
Apesar de toda negatividade nas redes sociais podemos ver muitas pessoas postando conteúdos mais autênticos e falando abertamente sobre seus desafios. Ver mulheres que eu admiro sendo honestas sobre seus problemas me fez sentir menos sozinha e me ajudou a aceitar minhas questões pessoais.

Cartas ao Medo

Aprendi uma das minhas estragais favoritas para lidar com o medo com a Natalie MacNeil e a Liz Gilbert. A Natalie gosta de escrever cartas encorajadoras para si mesma no futuro e a Liz Gilbert escreve sobre conversas que ela tem com o medo em seu livro Big Magic (infelizmente sem versão em Português). Eu decidi então combinar essas duas estratégias e escrever uma carta para o meu medo. O objetivo é deixar o medo saber que eu agradeço tudo o que ele faz por mim, mas que ele não vai mais ter controle sobre a minha vida. Isso pode parecer estranho. Confesso que me senti meio boba quando comecei a escrever minha primeira carta, mas quando eu terminei e a li para mim mesma eu senti algo muito poderoso. Com essa prática eu reconheço que eu não sou o meu medo. Eu tomo o controle da minha vida de volta.
Esta é uma das cartas que eu escrevi após ler Big Magic:

Olá Medo,

Meu querido, velho amigo. Onde quer que eu vá, seja quando for, voce está sempre comigo. Não consigo me lembrar quando ou como nos tornamos tão próximos, mas sei que estamos juntos há muito tempo. Durante meus maiores desafios você estava lá. Durante meus momentos mais felizes você também estava presente. Eu agradeço muito sua companhia, você moldou as decisões que eu tomei e a forma como eu as tomei. Agora que eu estou pensando em mudar de carreira você está presente novamente. Sempre me lembrando de tudo que pode dar errado e todas as formas pelas quais eu posso falhar. Eu sei que esse é o seu trabalho e você o faz para preservar minha vida e meu bem estar. Você sempre esteve comigo, se certificando que eu permaneça viva e não entre em muitas confusões. Sou muito grata por isso. Mas eu não preciso mais que você esteja tão presente em minha vida. Não me entenda mal, eu valorizo seus insights e sua companhia, mas estou muito bem comigo mesma. Você ainda pode vir comigo, mas você não vai mais tomar nenhuma decisão. Você não vai poder escolher como eu faço as coisas, nem decidir se eu as faço ou não. Você me ensinou muito e agora eu posso tomar essas decisões sozinha. Estou indo em frente com os meus planos..

Com amor,

Camila

*Esta uma tradução do meu diário – ela foi escrita à mão, em inglês, e como é um processo intuitivo eu apenas coloco a caneta no papel e escrevo o que me vem à mente, sem me preocupar com detalhes como gramática ou coerência. *

Uma outra sugestão da Liz Gilbert é deixar que nosso medo nos escreva uma carta. Ela diz, e eu concordo, que às vezes parece que sentimos medo de tudo, mas que na realidade temos medo de algumas coisas bem específicas. Quando ouvimos o que nosso medo tem a nos dizer podemos respondê-lo de forma consciente.

Escrever cartas para nós mesmas é uma ótima forma de entrar em contato com partes da nossa mente que não estamos acostumadas a explorar. Isso nos dá uma nova perspectiva, vinda de dentro de nós mesmas, e fortalece nossa intuição.

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